Kezia Talisin

Kezia Talisin

agosto 3, 2018

Realizada por Andressa Barichello em 27/09/2016.

Ateliê da artista Kezia Talisin é um convite ao encantado.

Dois turistas alemães chegados antes de nós nos dão bom dia em manhã de sábado, comunicando-se na linguagem da simpatia. Uma veneziana biombo divide o ambiente-vitrine, um abajur que parece ter sido encomendado da belle époque, uma mesa de telefone, o vaso estampado de florzinhas ganhado da mãe – singelo mas especial por um motivo que não se pode especificar qual.

Por um momento, estamos como dentro da casa de bonecas da infância. Mas ninguém se engane: tudo possui dimensões proporcionais ao nosso tamanho adulto. Em lugar das bonecas, o rastro da infância que resiste nos adultos como forma de representar o mundo e sua subjetividade: a arte.

Quando o pai de Kezia um dia sugeriu que a filha pudesse ser, quem sabe, farmacêutica, pareceu ter apostado numa vocação distante. Mas talvez tenha acertado no palpite da moça alquimista, capaz de combinar elementos na composição de delicadas cápsulas – ou remédios? – de alma. Quem sabe, até, uma certa homofonia com “remendos”?

De peças de cerâmica, papéis e recortes, Kezia vai fazendo aplicações, parte por parte, corpo por corpo. Seja pelas incisões feitas à tesoura ou na ligação estabelecida entre materiais de textura tantas vezes oposta, a artista produz o tipo de [re]corte que tem a ver com ressaltes e adornos. Percebe-se na dedicação dela a leveza de mãos intencionadas que a convenção escolhe chamar de perfeccionistas. Cirúrgico, nesse caso, quer dizer preciso. Nas intervenções localizadas feitas à tinta ou papel vão se compondo, mais do que imagens, verdadeiros planos em cores mais atentas ao real interior das coisas e dos ambientes.

Na arte de Kezia a combinação subjetiva de figuras, formas, cores e sentimentos é regida por uma lei muito própria e nos remete a uma visão espiritual. Talvez não seja acaso a admiração da artista por Gustav Klimt e Henri Matisse que, no tempo, são ecos pioneiros na recriação de realidades multiplicadas a partir de cores e formas.

Quando penso nessa “realidade a recriar” da arte, relembro que durante nossa visita ao ateliê falamos a respeito da experiência de Kezia em escolas para levar às crianças um pouco sobre o que, no dia a dia, corresponde ao ofício do artista. Descobri com Kezia que para as crianças a palavra “artista” tem ainda o peso forte da admiração que, quando adultos, tantas vezes deixamos abrandar se nos tornamos distantes dos espaços de produção artística. Menos rigorosas quanto à necessidade de um conhecer racional do mundo (que tantas vezes aprisiona nossa mente adulta), a criança, quase sempre aberta às experiências do ser, permite-se ver telefones em arabescos e criar em pensamento muitas outras formas. A infância, talvez, como cordão umbilical que nos permite, já adultos, retornar ao entendimento autêntico sobre o que está aquém e além da obra-objeto?

Ao falar dos arabescos, tão presentes em suas obras, Kezia faz um lapso profundamente poético: acho que nasci enrolada em um!Mas a mudança de assunto àquela altura não me faz esquecer: arte, novamente, como espécie de cordão, entrecruzamento de linhas, o fio de ouro – para a artista, quem sabe, como composição melódica que vai do umbigo à vida lá fora, aporte de oxigênio.

Segue-se em meu pensamento – quase como um contínuo ao cordão – a imagem de uma placenta, espécie de árvore. Porque se o cordão em alguma medida está para os arabescos, poderia a placenta estar para as árvores? As plantas, especialmente as árvores e seus troncos, são outro elemento muito presente nos trabalhos da artista e parte do que nos leva à dimensão que escolhi chamar de encantada.

A Pós Graduação em Educação, Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFPR e o curso de hotelaria – primeira formação de escolha – propiciaram, de ponto a ponto [turístico] de Curitiba, um aprofundamento da artista nas questões culturais da nossa região e uma reflexão sobre como comunicá-las. Com essa força, Kezia valoriza a importância das manifestações artísticas locais e tem como preocupação ampliar a quantidade de apreciadores da arte, desafiando/incentivando as pessoas a que presenteiem com arte e sejam elas mesmas os agentes facilitadores desse processo de democratização do acesso.

Artista, curadora, empreendedora – Kezia nos faz relembrar a respeito da nossa própria necessidade e capacidade de ramificação: Na arte, às vezes, no lugar da tinta, papel; no lugar do pincel, a tesoura.

Fim de contas, o que importa é estar entre amigos – isso, contam as telas de diversos artistas fixadas na parede do ateliê e o carinho com o qual Kezia reverencia os colegas, especialmente a orientadora Carla Schwab cujo laço no tempo data de 2007, início das aulas no Solar do Rosário. Fim de contas, um plano adiante dos fundos geométricos, o que valsa é o êxtase do trabalho – e a possibilidade de fazer com que, por meio dele, o outro sinta alegria.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Kezia Talisin
Mais em: Ateliê Kezia Talisin

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